Ainda sem respirar
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Ao nomear cada conjunto de poemas com elementos da natureza – ar, água, terra – a autora substituiu fogo por asfixia. À primeira vista, a troca pode parecer óbvia, já que em tempos de morte exacerbada, o elemento da vitalidade cederia espaço, naturalmente, a níveis baixos de oxigenação. Engana-se, porém, o leitor que se deixa levar pelas primeiras impressões. Há sopro criativo transbordando em meio a tanta falta de ar, “oxigênio de versos”, nas palavras da poeta.
Os neologismos, por exemplo, insuflam de vida a língua, órgão vital no corpo do poema. “Estou doente de entendimento”, lemos em um dos versos. E logo a palavra inventada desponta como erva curandeira. No “ampliespaço” poético desta escrita é possível “fluexistir” feito “averrasteira”, “salvadora das fomes que devoram minha/nossa força”. E se a palavra poética surge alvissareira em tempos de “futuro adubado com excesso de incerteza”, é impossível não percebê-la matéria bruta “soldada num ferro de grilhões” ou talhada em madeira que cupim não rói, “entre a vida e a sorte”.
Os trocadilhos conferem certo humor “des-locado” a uma poética que se anuncia formal e com desejo de pertencimento, e que, repentinamente, se faz brinquedo “na ponta dos textos”, caminhando “de encontro ao que não pertence”. Esse deixar-se flagrar por uma contra-dicção aparente empresta pueridade, mesmo aos versos mais densos. É como se uma formalidade desejosa de explicação fosse atravessada por clareiras poéticas chispando significados “sentimentados”, para usar mais um precioso neologismo da autora.
Como se vê, é feita de fogo a poesia que luta para existir num “amanhã sem espinhos”. É palavra lavrada em chão vulcânico, desentranhando tempos e espaços porque “não há fogo que baste para derreter tanta casca”. Ainda sem respirar convida a descamar sentidos para entrever na “brecha de suspiro soluçado do destino” sulcos, desvãos, arestas, frestas.
Cristiane Tavares é mãe, professora, crítica literária e poeta
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