Da janela feita pele se avista além de qualquer fronteira. É preciso encostar-se no parapeito metálico e pausar os minutos em silêncio para ler paisagens e adentrar incômodos. Suspender o tempo e ouvir também o que não dizem as palavras. É preciso alcançar as inscrições na parede úmida do poço e desse útero ver jorrar. Colar o ouvido ao canto dos pássaros mudos para aprender o voo. Respirar líquido com os peixes.
É com o corpo que se lê o que contam essas narrativas paralelas, mas nunca enfileiradas. Os dedos logo vão saber como
desfolhar as páginas. Porque o espaço aqui é feito dobradura que guarda delicadeza e liberta movimento. É, ao mesmo tempo, amplidão de campo amarelo-ouro e reclusão cinza-chumbo. Nem circular, nem circunscrito: é construção que deixa ver os andaimes e ensina a brincar com estilhaços.
É possível que durante a leitura sinta-se uma necessidade incontrolável de rapidamente levantar os olhos do livro para espiar, pela fresta da persiana, o sexo do vizinho. Pode ocorrer, ainda, um desejo ancestral de comer raízes e fazer fotossíntese no asfalto. Virão, sem dúvida, risos sacanas de canto de boca e risadas largas. Nada que assuste em demasia um leitor enamorado por vertigens literárias de longa duração.
Cristiane Tavares
R$55.00

Geruza Zelnys
é escritora, poeta, professora e pesquisadora. Doutora em Teoria Literária (USP), com pós-doutorado em Filosofia da Educação (Unifesp) e formação em Esquizoanálise. Criou o curso de Escrita Curativa apresentado no livro A escrita curativa. Ou de como voar com asas quebradas (Fábrica de cânones) e segue pesquisando processos criativos que envolvam corpo, texto e voz. Publicou vários livros em diferentes gêneros literários, entre eles Quintais (Patuá) e Atracados aos pés da cama (Fábrica de cânones).
| Gênero | Contos brasileiros |
|---|---|
| Ano de lançamento | 2016 |
| Formato | 14 × 21 × 1 cm |
| ISBN | 978-85-8282-050-6 |
| Páginas | 104 |
R$60.00
R$48.00