-

Ainda sem respirar

Ao nomear cada conjunto de poemas com elementos da natureza – ar, água, terra – a autora substituiu fogo por asfixia. À primeira vista, a troca pode parecer óbvia, já que em tempos de morte exacerbada, o elemento da vitalidade cederia espaço, naturalmente, a níveis baixos de oxigenação. Engana-se, porém, o leitor que se deixa levar pelas primeiras impressões. Há sopro criativo transbordando em meio a tanta falta de ar, “oxigênio de versos”, nas palavras da poeta.

 

Os neologismos, por exemplo, insuflam de vida a língua, órgão vital no corpo do poema. “Estou doente de entendimento”, lemos em um dos versos. E logo a palavra inventada desponta como erva curandeira. No “ampliespaço” poético desta escrita é possível “fluexistir” feito “averrasteira”, “salvadora das fomes que devoram minha/nossa força”. E se a palavra poética surge alvissareira em tempos de “futuro adubado com excesso de incerteza”, é impossível não percebê-la matéria bruta “soldada num ferro de grilhões” ou talhada em madeira que cupim não rói, “entre a vida e a sorte”.
Os trocadilhos conferem certo humor “des-locado” a uma poética que se anuncia formal e com desejo de pertencimento, e que, repentinamente, se faz brinquedo “na ponta dos textos”, caminhando “de encontro ao que não pertence”. Esse deixar-se flagrar por uma contra-dicção aparente empresta pueridade, mesmo aos versos mais densos. É como se uma formalidade desejosa de explicação fosse atravessada por clareiras poéticas chispando significados “sentimentados”, para usar mais um precioso neologismo da autora.

 

Como se vê, é feita de fogo a poesia que luta para existir num “amanhã sem espinhos”. É palavra lavrada em chão vulcânico, desentranhando tempos e espaços porque “não há fogo que baste para derreter tanta casca”. Ainda sem respirar convida a descamar sentidos para entrever na “brecha de suspiro soluçado do destino” sulcos, desvãos, arestas, frestas.

 

 

Cristiane Tavares é mãe, professora, crítica literária e poeta

 

 

R$50.00

Sobre autor(a)

 

[vc_column width=’1/2′]

gênero: poesia
formato:
14× 21 × 1 cm
páginas:
136

peso: 0,240 kg
ISBN: 978-65-99646263
ano de lançamento:
2022

[/vc_column]

[vc_column width=’1/2′]

[button icon=”fa-file-pdf-o” target=”_self” hover_type=”default” text=”Leia um trecho do livro” icon_color=”#000000″ link=”https://fabricadecanones.com.br/wp-content/uploads/2022/08/Ainda-sem_miolosite.pdf” color=”#000000″ background_color=”#da0401″][/vc_column]

Informações técnicas

Informação adicional

Conheça também:

Fragmentos da Madrugada – Maria Cristina Kuntz

R$60.00

Esfregatio – Priscila Alonso

R$58.00

O ovo do ovni – Reynaldo Damazio e J. Zero

R$48.00

Vidas Aquáticas – Cecília Lara

R$50.00

Machucado – Aline Gon

R$50.00

Absorta – Cibele Lopresti

R$50.00